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António Pinho: Uma vida marcada pelo destino
O seu amor pela pátria tornou-o forte para lutar contra a dor de não poder ver a sua mãe
Carla Salcedo Leal
csalcedo.correio@gmail.com
Natural do distrito de Aveiro, António Pinho chegou ao porto de La Guaira no navio Auriga. Tinha 16 anos e a dor de ter deixado a mãe e as suas três irmãs num lugar em que, enquanto havia gente a morrer de fome, viam passar comboios com letreiros que diziam ‘Sobras de Portugal para Espanha’. Em terra firme, esperavam-no o irmão e o pai, que lhe deu um dos melhores conselhos que recebeu na vida: “Faças o que fizeres, nunca deixes de ser humilde”.
Na altura não se ouvia falar muito da Venezuela, mas saiu junto com um tio e um vizinho em busca de um futuro melhor. “O meu pai atreveu-se a vir pela situação em que estávamos, devido à ditadura, e ele disse que emigrava para salvar os seus filhos da guerra, talvez não da fome, mas ia-nos salvar da guerra, e graças a Deus que o fez”, conta António, que se mantém em Vargas desde essa altura.
“Vivíamos em frente ao porto. Comecei a trabalhar num negócio em que o meu pai atendia os clientes e distribuía caixas de comida”, recorda António, que naquela altura tinha que colocar uma caixa de refrescos debaixo dos pés para poder alcançar o balcão. Pouco tempo depois chegaria ao seu tamanho normal, semelhante ao de um jogador de basquetebol.
“O meu pai tinha uma boa amizade com um casal andino e na noite em que cheguei convidaram-nos para jantar. Nessa noite soube o que era uma ‘hallaca’ e um ’bollo’. A atenção dessa família fez-me esquecer tudo o que chorei pela separação da minha família. Fui crescendo sem esquecer-me de Portugal, e chorava todos os dias pela minha mãe”, diz.
Uma nova vida
“A primeira coisa que o meu pai me ensinou foram os palavrões, e o resto foi fácil, porque adaptei-me rápido. Como estava no balcão, as pessoas foram me acarinhando e isso ajudou-me muito. Eu não sabia falar mas eles ensinaram-me, era como um gravador que estava dentro de mim”, revela. Foi a sua facilidade em falar e em estabelecer relações a ferramenta que o ajudou a crescer profissionalmente. “Comecei a trabalhar como motorista, distribuindo mercadoria, e ao fim de um mês já tinha subido para vendedor. Ao fim de um tempo os meus chefes convidaram-me para almoçar com um gerente da Digas, e no final o senhor fala com o meu chefe e diz-lhe que me quer para gerente em Vargas, sem eu saber que era ‘el gas’. Sempre tive trabalho, e onde estivesse a trabalhar iam me buscar para ir trabalhar para outro lado”, relata.
Aqueles que considera ser a melhor prenda que a Venezuela lhe deu, a mulher e os três filhos, foram um grande apoio e um impulso gigante. “Em Fevereiro de 1963 conheci a minha esposa, foi amor à primeira vista. Em Outubro casámo-nos no civil e em Dezembro casámo-nos pela igreja”. E continua: “Jamais pensei casar-me na Venezuela, os meus amigos criticaram-me muito, mas a mim isso não me importava porque eu queria casar com uma mulher que me quisesse para toda a vida, e aqui estamos, ainda que ela às vezes brigue comigo”.
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